Ricardo Feltrin: uma visão objetiva dos fatos do mundo artístico e com muita qualidade

Ricardo Feltrin: uma visão objetiva dos fatos do mundo artístico e com muita qualidade

Por Davi Arraz 16/07/2021 - 15:07 hs
Foto: Internet

Jornalista, músico, professor, escritor e editor, Ricardo Feltrin é um homem multimídia. Em sua vasta carreira já deu aulas na rede estadual de ensino, foi músico e tocou em bandas de baile, de rock, country rock e hard rock. Jornalista desde 91 trilhou um longo caminho e participou da cobertura de eventos como o Massacre do Carandiru (92), o impeachment de Collor (92), a morte de Ayrton Senna (94), os ataques do PCC a São Paulo (2006), a invasão da casa de Silvio Santos (2001), o 11 de Setembro; e as guerras dos EUA contra o Afeganistão e, depois, contra o Iraque. Hoje comanda colunas no UOL, e escreve sobre televisão e entretenimento.

 

Em primeiro lugar, fale de sua infância e o que costumava ler, você era um nerd? E o que queria ser quando crescer?

Aprendi a ler com 4 anos. Fui alfabetizado pela minha mãe não com cartilha, mas com música. Minha mãe era pianista clássica e cantora lírica, e foi minha professora. 

Antes de saber a soletrar o "a e i o u" eu aprendi a ler e escrever as notas dó, ré, mi fá sol, lá si (por escrito e na partitura). Devo à minha mãe o fato de tocar piano até hoje. 

Meu primeiro livro de cabeceira foi a Bíblia. Comecei a lê-lar com 6 anos e lembro que a terminei lá pelos 10 anos (porque eu também lia outras coisas, claro). Só que li a Bíblia ao contrário: do Apocalipse para o Gênesis.

Sim, eu era e ainda sou um nerd. Passava e passo o dia enfurnado em livros. Tive sorte de nascer numa casa que tinha, veja só, uma pequena biblioteca. 

Ali tinha todas as melhores enciclopédias, livros de história, filosofia e até de genética. Também tinha centenas de gibis, que fizeram parte importante da minha formação. Ler era e ainda é minha grande diversão, ainda mais que a música.

Quando era pequeno meu sonho era ser cientista. Ganhei do meu pai meu primeiro microscópio com 5 anos. Mais tarde, no colegial, fui estudar Cerâmica Química no Senai. Sou formado técnico em Cerâmica. Infelizmente após o estágio eu não consegui seguir na carreira, não havia vagas. Era o início dos anos 80, um desemprego imenso e zero investimento.

 

Conte um pouco suas influências, e o que levou a se tornar um jornalista.

Virei jornalista sem querer. Eu trabalhava como músico profissional e professor (substituto) da rede estadual de ensino em SP. Dava aulas de história e geografia. 

Um dia soube por uma amiga que a Folha abrira um concurso para uma nova turma de trainees. Fiz o teste, passei, fiz o curso e fui contratado em 91. 

Estou no Grupo Folha UOL desde então, e já se vão 30 anos

 

Sua passagem pelo mundo da música foi bem eclético. Como foi essa experiência?

Como músico toquei de tudo e em todos os lugares: festivais, bares, restaurantes, festas de peão de boiadeiro, bailes, e até em casas de baixíssima reputação, se é que me entende (rs).

Durante todos os anos 80 trabalhei com música e só parei com as apresentações porque fui contratado pela Folha e o jornalismo não dava tempo de fazer mais nada. 

Mas, tenho teclados em casa e pratico sempre que posso (espero que isso não seja motivo de tristeza para meus vizinhos rs...)

 

O que te levou a trocar a o mundo das notícias pelo o entretenimento?

O que me levou a ir para o Entretenimento? Dinheiro. Recebi um convite irrecusável em 1997 da Folha da Tarde (hoje jornal Agora) para ser o novo colunista de TV e Celebridades. Já havia sido colunista de política no mesmo jornal e estava então na Folha, como repórter de Cotidiano.

Na verdade, é tudo a mesma coisa para mim: estou sempre atrás de bastidores, apuração e busca por notícias exclusivas.

 

Hoje as mídias sócias dos artistas mostram o dia a dia em tempo real, ainda existem fontes que fornecem algum furo de reportagem?

Em praticamente todos os dias do ano você vai ler alguma notícia exclusiva sobre televisão ou mídia na minha coluna. Artistas e empresas (TVs) só mostram "notícias" positivas sobre si nas redes. 

Quem quer publicar algo relevante hoje em dia tem que se esforçar muito e correr atrás.

Ficar só seguindo Instagram de artistas só vai fazer do jornalista um chapa-branca ou assessor de imprensa não remunerado. 

Em alguns casos, porém, há alguma curiosa "lavação de roupa" familiar em redes sociais. Mas, mesmo assim, evito noticiar a vida privada das celebridades. Não é meu foco.

 

Com essa globalização e velocidade que a internet trouxe, hoje é mais fácil falar do mundo do entretenimento?

Depende. Se o jornalista é preguiçoso e raso basta ele ficar reproduzindo o que os famosos postam na internet. Ou, outra "moda, ficar copiando o que os jornalistas que apuram publicam.

Tenho visto isso há muitos anos. Sites que copiam --e muitas vezes distorcem-- meus furos e de alguns colegas, como Daniel Castro (Notícias da TV)  para obter cliques. 

Há um site específico que venho juntando provas de sua indecência há pelo menos quatro anos. Ele não só distorce e mente sobre minhas informações como ainda as atribui a mim mesmo. Esse sitezinho fuleiro terá uma surpresa judicial em breve.

 

Na sua visão, o jornalismo hoje pede que atributos do jornalista?

Jornalista tem que ter o básico e mínimo: seriedade, isenção, apartidarismo, senso crítico e, na minha área, evitar ficar "amiguinho" das celebridades. 

Não vou a festinhas, não frequento casas de artistas e não dou intimidade nenhuma. Quanto mais "amiguinho" for da notícia, menos séria vai ser sua cobertura.




Como é a rotina de trabalhar em um dos maiores e mais importantes portais de notícias do país? É estressante essa agilidade que a notícia exige hoje em dia?

Eu sou ansioso por natureza, então estresse é comigo mesmo (rs). 

Não sinto pressão em  trabalhar no UOL, porque estou lá já há 20 anos. Sou o mais antigo colunista de entretenimento do portal e, principalmente, confio no meu trabalho. Sou bastante competitivo, aliás (rs)


Como um jornalista tarimbado, diria que fake news é um mal do século? Elas tendem a crescer?

O mal do século 21 é a volta do fascismo e do obscurantismo. Essa laia de ignorantes iletrados, que arrogam para si o poder e o destino do país. Nunca leram um livro, têm cultura zero, mas acham que são donos da verdade. "Fakenews" é só um modus operandi do comportamento fascista. 

E boa parte da responsabilidade das "fakenews" são das redes sociais, que permitiram chegarmos à atual situação, já que faturam alto com cliques.

Mas, veículos, sites e portais também são responsáveis por abrigar "fakenews" publicitárias e matérias vergonhosas sensacionalistas e caça-cliques.

"Conheça a fruta que devora gordura". "Veja o aparelho que vai te rejuvenescer em 10 anos com apenas alguns minutos de uso por dia". "Perca 390 quilos em apenas duas semanas". "Lembra de Fulano Artista? Clique e fique chocado ao ver como ele está hoje e blablá..."

Estou farto de ver esse tipo de "anúncio" em sites que arrogam ser sérios. Isso é tão vergonhoso e nocivo quanto "fakenews noticiosas"


Hoje, depois da revolução que passou a comunicação, do papel para o digital, qual será o futuro da mídia?

Não posso fazer previsões sobre o futuro da mídia. Estamos num momento de transição. Mas, certamente, a "pasteurização" atual vai crescer: ou seja, a mesma fonte (agência) vendendo informações idênticas para vários veículos. Já é um pouco assim em editoriais como Internacional e Economia, aliás.

 

Você tem uma paixão pelo animais, principalmente por patos. Você coleciona patinhos?

Já tive centenas de patos. Hoje devo ter uns 20 ou 30, e a maioria deles foi presente do Gugu Liberato. 

Gugu sabia da minha paixão por patos e toda vez que viajava para qualquer lugar do mundo, me trazia um patinho de borracha diferente. tenho pato cientista, pato anjo, pato astronauta, pato diabinho, rapper, cantor... Tudo presente do Gugu. Guardei apenas esses e mais alguns poucos que tenho ligação emocional.

 

De todas as suas reportagens, de qual você mais sente orgulho?

A reportagem que mais me orgulho obviamente é a que me rendeu o prêmio Folha de Jornalismo - Categoria Reportagem - em 2010. "Folha sabia o resultado da licitação da Linha Lilás do Metrô há seis meses". Dei isso quatro anos antes da Lava-Jato, a reportagem levou para o banco dos tribunais executivos das maiores empreiteiras do país. 

Fui ameaçado, perseguido, passei anos depondo a advogados e juízes. Tentaram me acusar de "inventar" a mutreta e de ter agido para "desmoralizar" o Metrô e as empresas, veja só.

Por anos a assessoria do Metrô de SP escreveu para o Painel dio Leitor da Folha acusando o jornal e a mim de termos sido responsáveis pelo "atraso" nas obras da Linha Lilás.

Depois que uma empreiteira fez delação premiada e admitiu a fraude na licitação, o Metrô SP mudou o discurso e passou a se declarar um pobre coitado, oh, "vítima" das empreiteiras. 

Coisa nenhuma. Metrô foi conivente com tudo desde sempre.

 

Você cobriu guerras, fatos importantes, política e muita cultura. Com sua experiência, o Brasil ainda tem solução?

Vou desanimar você e seus leitores. Pessoalmente, não vejo solução alguma nem para o Brasil e nem para o mundo. A raça humana está rumando cada vez mais para a decadência. Boas atitudes e boas ações, bem como a honestidade, são cada vez mais raras.

Hoje se alguém acha dinheiro e devolve ao dono isso vira notícia simplesmente porque é incomum. 

Socialmente, o Brasil está cindido ao meio e temo que a situação vá se agravar ainda mais nos próximos meses. A única luz que vejo no fim do túnel é a de uma locomotiva vindo em nossa direção.